Um Possível Cenário para 2018

Assim como para os esportistas o jogo mais importante é o próximo, para os políticos a eleição mais importante é a próxima. Os detentores de cargos eletivos procuram sim implementar uma ou outra medida que corrobore suas ideologias, mas o fazem apenas na medida do possível; entre uma política ideológica impopular e uma prática eleitoreira qualquer, ficam com a segunda.

Assim, não é de todo improvável que o cenário que descreverei a seguir se apresente em 2018. Vamos a ele.

Creio que podemos ter uma parceria entre Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, com Alckmin para Presidente e Haddad para governador. E isso pode ocorrer até mesmo com os dois no mesmo partido, mas que não seria nem o PSDB nem o PT.

Vejamos porque Alckmin pode deixar o PSDB.

Muitos analistas afirmaram que Alckmin foi o grande vitorioso nas eleições municipais de 2016, ao ajudar a eleger João Doria em São Paulo, mas essa vitória é muito localizada. Houve de fato uma vitória do grupo de Alckmin dentro do PSDB paulistano, que escolheu Doria como candidato. Até aí a única surpresa foi constatar que a força do governador é grande também dentro do diretório municipal, pois já sabíamos de sua força no diretório estadual. A eleição mesma de Doria não pode ser atribuída somente à força de Alckmin, uma conjunção de fatores concorreu para tanto, como a crise econômica, a concorrência pouco expressiva e a rejeição do PT.

Além disso, Alckmin já teria sofrido uma derrota após as eleições, com a recondução de Aécio Neves à presidência do PSDB. Isso mostra que a tão falada grande vitória de Alckmin nas eleições do ano passado não lhe renderam nem mesmo um cenário favorável dentro de seu próprio partido.

Caso Alckmin perceba que não terá o apoio integral de seu partido, pode abandonar o barco. Provavelmente iria para o PSB, partido de seu vice, e que já fala abertamente na possibilidade de incorporar o tucano. E veja que não ter o apoio integral do PSDB independe de sua indicação à candidatura. Os líderes tucanos (Alckmin, Serra, Aécio e FHC) não se unem incondicionalmente em torno do candidato do partido. Alckmin não teve apoio entusiasmado de Aécio em 2006 e Aécio não teve grande apoio de Alckmin em 2014, assim como FHC não apoiou Doria desta vez.

Há uma chance pequena de Aécio ficar fora da disputa por conta dos imponderáveis trazidos pela Operação Lava Jato. Se isso ocorrer, a briga fica entre Alckmin e Serra. Suponha ainda que Serra prefira concorrer à presidência pelo PMDB; só então Alckmin teria as condições ótimas, dentro do PSDB, para concorrer à presidência. Mas veja que esse cenário implica muitas suposições que até este momento não parecem muito prováveis. Aécio não está no centro da Lava Jato e Serra teria que brigar também dentro do PMDB.

É mais provável, portanto, que Aécio e Serra estejam na briga interna do PSDB em 2018, o que dificulta as coisas para Alckmin, tornando a estratégia PSB mais atrativa. O PSB pode aglomerar uma grande coligação de partidos menores (tais como PV, PPS, PHS e PROS) que devem estar insatisfeitos com a alternância entre PSDB e PT na presidência. Uma grande coligação dirimiria a perda em termos de tempo de propaganda na TV que Alckmin teria ao sair do PSDB. Além disso, a eleição de 2018 será diferente das últimas eleições; deve ser mais parecida com a eleição de 1989, provavelmente terá muitos candidatos, a possibilidade de outsiders e a volta da baixa popularidade do PT; tudo isso contribui para a perda de importância dos grandes partidos (PT, PMDB e PSDB).

Quem teria muito a perder nessa história seria o PSDB, sobretudo se Doria seguir Alckmin. A relação Alckmin-Doria assemelha-se à relação entre Gilberto Kassab e Guilherme Afif Domingos; e lembrem-se que Afif seguiu Kassab quando esse deixou o DEM para criar o PSD.

Agora vejamos porque Haddad pode deixar o PT.

As evidências aqui são em menor quantidade do que no caso anterior, até mesmo porque a carreira política de Haddad é mais recente. Mas vamos a elas. Em primeiro lugar, o PT precisa muito mais do Haddad do que o Haddad precisa do PT. Em 2018 o PT precisará de alguém que não esteja maculado pelos casos de corrupção tão comuns no partido e alguém que já tenha tido algum retorno eleitoral decente. Se não for Haddad, deve ser Tarso Genro. Haddad é mais carismático e mais inteligente, e isso independe do partido em que esteja.

Haddad também já mostrou que aceita se coligar com qualquer um para ganhar uma eleição (caso Paulo Maluf 2012); assim, se aliar a Alckmin não seria um absurdo. Haddad também não se vê atrelado ao PT. Uma vez, no longínquo ano de 2003, quando eu era seu aluno de ciência política na USP, Haddad dizia que não era PT, apenas estava PT. Embora ele tenha dito isso num ambiente de radicalismo de esquerda (FFLCH) e de insatisfação com a política macroeconômica ortodoxa do primeiro ano do governo Lula, a afirmação mostra que sair do PT é uma possibilidade. Curiosamente, no mesmo curso (isso se não foi na mesma aula), Haddad criticou Maluf, dizendo que este teria quebrado a prefeitura para eleger Celso Pitta. O fato de Haddad vir depois a posar para foto apertando a mão de Maluf mostra que não seria coerência ideológica a impedir que ele deixe o PT.

Convido o leitor a assistir o discurso de Haddad na posse de Doria. A fala é mais do que amigável, ele trata o sucessor por irmão, sob o largo sorriso de Alckmin. Alckmin e Haddad, aliás tiveram uma boa relação política como governador e prefeito. Para mim o momento mais marcante da parceria foi quando capitularam conjuntamente ante os vândalos em 2013.

O momento político brasileiro também favorece uma nova estratégia da esquerda não radical, que deve debandar do PT em direção a partidos mais de centro.

Haddad teria menos força como candidato ao governo de São Paulo dentro do PT do que fora dele: a rejeição do partido é maior no restante do estado do que na capital. Além disso, se não estiver concorrendo com o apoio de Alckmin, terá de enfrentar o candidato que terá o apoio deste, e Alckmin é muito popular no estado.

Por fim, uma parceria entre Alckmin e Haddad é inviável se ambos continuarem em seus partidos, pois os dois partidos terão certamente candidato próprio à presidência, e o PT não trairia seu partido como o PSDB o faz.

No nível do discurso é fácil justificar o movimento. Na verdade, nem acho que eles precisem (embora devessem) dar justificativas para ganhar votos. Mas Alckmin pode alegar que o PSDB ficou por demais atrelado ao governo Temer, cuja condução não teria sido muito boa etc; e Haddad pode dizer que não coaduna com as práticas corruptas do PT, que criou a controladoria em São Paulo etc. Ambos podem ainda encampar um discurso de tolerância em um momento de polarização e por aí vai. Os alckmistas não são partidários e seguiriam alckmin.  Os petistas abandonariam Haddad, mas este não precisa daqueles para se eleger governador de São Paulo. Finalmente, coerência ideológica não é fator eleitoral muito relevante no Brasil. O PSB é socialista só no nome, a não ser que centro-esquerda no Brasil signifique socialismo. Mas, mesmo que o seja, a massa do eleitorado não decide o voto levando em conta o nome e muito menos o estatuto dos partidos.

Como vimos, uma aliança Alckmin-Haddad dentro do PSB é na verdade uma estratégia atrativa para os dois em 2018.

 

 

 

 

Governo Representativo

A noção de representação política nos é bastante antiga, tendo ocorrido pela primeira vez provavelmente na Roma Antiga, mas a ideia de democracia enquanto governo representativo surge com a Revolução Francesa e a Independência Americana. Em contraste com as democracias nas pequenas cidades-estado na Grécia Antiga, as grandes nações modernas precisaram de um novo método para que as massas pudessem participar da vida política. Assim, em vez de deliberar-se sobre as questões de maneira direta, erigiu-se formas de governo indireto, de representação dos interesses dos cidadãos.

Os representantes devem levar à assembléia, os interesses dos representados, não seus próprios interesses. Mas nós aqui do Política Sem Romance sabemos que isso é apenas uma quimera. O representante buscará o que é melhor para ele. Se seus interesses estiverem alinhados com os dos representados, sorte desses, senão, azar. Um teórico da representação e figura emblemática do conservadorismo, Edmund Burke asseverava que o representante deveria sim, ter os interesses dos representados em mente, mas que também deveria usar seu julgamento para saber o que seira melhor para os representados; se não o fizesse, seria um traidor de sua condição privilegiada. Hoje sabemos que os representantes farão não o que é melhor para os representados, mas o que os representados acham que é melhor para eles. Caso o representante opte por algo que não pareça agradável aos eleitores, ele tentará esconder sua ação, ou então usar de retórica para convencer os eleitores de que o que faz é para o bem deles. O representante faz sempre um cálculo de custo/beneficio de suas ações, e o principal fator nessa deliberação é o voto dos eleitores. O representante tem certo interessem em implementar políticas públicas que julgue boas, mas não tardará a enterrar suas ideias se elas lhe custarem o cargo.

Essa visão do representante como uma pessoa de distinção, de capacidade superior de julgamento, foi elaborada por Burke apenas de maneira mais elegante, mas era ideia corrente no debate político do século XVIII. Tanto o Reino Unido quanto a França impunham limites à participação popular, tanto enquanto representantes como para eleitores. Via de regra, era preciso ser homem, natural do país, e dotado de posses para adentrar a vida política. Nos EUA não impuseram qualificações de riqueza na constituição de 1788. A matéria foi deixada para que cada estado decidisse como regular seu próprio eleitorado. Argumenta-se que só não houve tais restrições porque os delegados da Convenção da Filadélfia não chegaram a um acordo sobre como qualificar o eleitorado. O que era desejado por um estado era restritivo demais ou de menos para outro, segundo Bernard Manin, um respeitado pesquisador contemporâneo. Foi somente ao longo dos últimos dois séculos e meio que a a representação passou a ser vista mais como um mecanismo de equalização entre representantes e representados.

Um autor importante da teoria política no século XX, Joseph Schumpeter, argumenta que a democracia enquanto governo representativo é nada mais do que um método de seleção de líderes. Esse método confere, assim, um caráter elitista ao governo, não porque seleciona os melhores, mas simplesmente porque seleciona aqueles que vão não somente decidir as questões políticas, mas mesmo ter contato com elas. Para Schumpeter o eleitor não seleciona um político que vai representar seus interesses; ele seleciona um político, apenas isso. Essa visão faz sentido quando vemos questões de valência serem enfatizadas nas campanhas. Traços de personalidade, beleza, riqueza, formação etc não dizem respeito propriamente a questões de políticas públicas. Um candidato que não propõe nada para além de si mesmo seria, portanto, o arquétipo da definição de Schumpeter. Mas isso não é tudo o que vemos nas eleições. Embora por vezes fiquem em segundo plano, as propostas, ainda que genéricas, são comumente veiculadas. Pode-se dizer que não há de fato muita clarificação quanto aos detalhes da implementação dos programas propostos, quanto às diferenças entre si, ou mesmo quanto à sua viabilidade, mas que eles são expostos são. A questão que fica, talvez sugerida pela contribuição de Schumpeter, é a dúvida de se o governo representativo tem então alguma ligação com os interesses do eleitorado, se há o que chamamos em ciência política de electoral accountability, a ideia de que o eleito deve prestar contas de suas ações ao eleitor.

ANPOCS 2

Neste episódio coloco o áudio da minha apresentação no seminário temático de métodos de pesquisa no encontro anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, ocorrido em Caxambu-MG, no mês de outubro de 2016.

A fala  foi sobre minha pesquisa na área de Biopolitics.

Link para meu artigo.

ANPOCS 1

Neste episódio coloco o áudio da apresentação de dois amigos meus, Manoel Galdino e Rafael Magalhães, no seminário temático de métodos de pesquisa no encontro anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, ocorrido em Caxambu-MG, no mês de outubro de 2016.

A fala deles foi sobre p-hacking e pré-registro de pesquisas científicas.

Manoel e Rafael, assim como eu, são pesquisadores associados do Centro de Estudos das Negociações Internacionais da Universidade de São Paulo, conhecido como CAENI.

O Manoel também é diretor executivo da Transparência Brasil.