ANPOCS 2

Neste episódio coloco o áudio da minha apresentação no seminário temático de métodos de pesquisa no encontro anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, ocorrido em Caxambu-MG, no mês de outubro de 2016.

A fala  foi sobre minha pesquisa na área de Biopolitics.

Link para meu artigo.

As Eleições Americanas

Creio que a maioria dos que acompanham o noticiário sobre as eleições americanas tem uma boa noção de como elas funcionam, então não vou me alongar nesse ponto. Apenas para contextualizar a análise que farei em seguida, quero mencionar que no momento em que faço essa análise, Hillary tem uma pequena vantagem sobre Trump. O site fivethirtyeight.com dá a Hillary uma chance de vitória de 68%. O grande risco de Trump virar essa vantagem é se os indecisos decidirem votar nele. Nessa eleição há um número muito maior de indecisos, ou que se dizem indecisos, do que em 2012. Há a possibilidade de que muitos eleitores não declarem apoio a Trump por medo de serem mal vistos pela sociedade. Outra novidade nessa eleição é um menor número de pesquisas sendo feitas e a cada vez maior dificuldade de se encontrar pessoas dispostas a serem entrevistadas. Tudo isso eleva a incerteza nas pesquisas. Os números apontam que Hillary será eleita, mas a chance de Trump ganhar é maior do que era a chance do São Paulo golear o Corinthians por 4 a 0 sábado passado.

Também não quero repetir aqui as análises que têm sido feitas sobre os candidatos. Em linhas gerais creio que temos já uma boa noção de quem é quem.

O que tem sido pouco dito

Trump não é liberal, é protecionista. Quer rever o NAFTA.

Quer trazer de volta para os EUA empregos que foram perdidos para outro países (se o fizer reduzindo impostos internos tudo bem, mas é mais provável que ele queira elevar barreiras tarifárias)

E seu conservadorismo parece ser de ocasião.

Além disso, pouco se atentou para os candidatos a vice. Hillary e Trump são, se não me engano, os dois candidatos mais idosos a concorrer à presidência. Os vices, qualquer um deles, têm, portanto uma chance não desprezível de virar presidente.  Só me surpreende que nenhum deles seja do PMDB.

Mas meu ponto principal é o seguinte.

Quem quer que seja eleito não fará grandes mudanças na política interna dos EUA, já que nenhum deles terá maioria suficiente nas duas casa legislativas para tanto. É provável que os Republicanos continuem com maioria na House of Representatives e que o Senado passe a ser controlado pelos Democratas. Mas mesmo que um ou outro partido consiga o controle do congresso, será muito difícil obter maioria para a aprovação de medidas que causem grandes mudanças, como foi o caso do Health Care Act (Obamacare). Essas propostas legislativas tendem a ser polêmicas e geralmente encontram resistência dentro do próprio partido propositor. Deputados Democratas de Estados mais conservadores são mais conservadores que a média dos Democratas, e deputados Republicanos de Estados menos conservadores tendem a ser menos conservadores que a média dos deputados republicanos.

O grande problema, do ponto de vista interno, ao meu ver, é mais simbólico do que prático. A provável vitória de Hillary deverá causar um grande baque no partido Republicano. A última vez que um candidato democrata foi eleito para suceder um outro democrata presidente foi em 1856. A última vez que os democratas ficaram mais de dois mandatos consecutivos na Casa Branca foi entre 1933 e 1953, nas circunstâncias muito especiais da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial. Além disso, se se confirmar a vitória dos Democratas, os Republicanos terão perdido a eleição para a segunda candidata mais impopular da história dos EUA. A sorte dos Democratas nessa eleição é que o candidato mais impopular da história é justamente Donald Trump. Esses fatores deverão ser motivo de grande debate interno no Partido Republicano, embora eu ache que eles não devam entrar em desespero.

Muitos comentaristas dizem que esse será o fim do partido, que haverá um realinhamento etc. Tendo a discordar. Suponha que os republicanos mantenham a calma, internalizem a derrota e aguardem as próximas eleições. Tudo o que precisarão é de um candidato um pouco mais hábil que Trump. Trump ganhou espaço nas primárias por falar com sinceridade o que pensa, além de contar com o passivo de ser um outsider e um famoso empresário e apresentador de tv. Mas cometeu muitos erros durante a campanha, seja na retórica, seja em propostas polêmicas, ou no ground game, isto é, na arrecadação e bom uso de dinheiro para mobilizar a base. Se trocássemos hoje Trump por Pence, seu candidato a vice, mesmo sem que quase ninguém saiba quem ele seja, é provável que seria eleito. Mesmo Trump, se não tivesse falado tanto teria muito melhores chances agora. Portanto, não acho que seja o fim do mundo para o partido Republicano.

Para o resto dos EUA e para o mundo, a mensagem que se passará é de que os EUA seguem firmes na direção das suas mudanças sociais. Me lembro muito bem quando Obama ganhou de Hillary nas prévias em 2008, duma jornalista brasileira dizendo que os EUA ainda não estavam prontos para escolher uma mulher para presidente. Tenho a convicção de que ela tinha dois textos prontos, um para acusar os EUA de machismo e outro de racismo, de acordo com o resultado. Agora já não se poderá mais classificar o país nem como uma coisa nem outra. Fora isso, causas mais ligadas à esquerda ganharão força, mas nada que não seja apenas uma atualização de direito no que já ocorre de fato.

Creio que a grande diferença entre os candidatos está no que podem fazer na política externa. Hillary seguiria a doutrina Obama, de menor protagonismo como líder e com ações pontuais. Trump, mais agressivo, ao menos na retórica, traria maior incerteza quanto ao que poderíamos esperar de suas ações e das ações dos outros líderes do mundo. Com Hillary os EUA continuarão reconquistando um pouco do softpower que perderam, ao custo de hardpower.

Com Trump será o contrário. Com Hillary Rússia e China sentirão-se mais seguras e tentadas a continuar sua expansão. Com Trump países como o México, Japão e Arábia Saudita sofrerão mais economicamente, além do mundo como um todo com um maior protecionismo americano.

Uma vitória de Trump seria inesperada, mas não ao ponto de bagunçar profundamente o partido democrata. Excluindo-se o fator Trump, é razoável um partido perder uma eleição com uma candidata impopular, com uma economia mais ou menos e com o partido estando há oito anos no poder.

Finalizando

Eleições são um fenômeno que faz a emoção bater na razão. Embora eu goste de política, acho que não devemos nos deixar carregar por um teatro com atores ruins e um enredo pior ainda. Temos que entender que uns querem uma coisa e outros querem outra. É um mal sinal quando a política invade toda a nossa vida. Isso era bom para os gregos na Grécia Antiga, que não tinha nada melhor pra fazer. E, como afirmei anteriormente, não creio que nem Trump nem Hillary serão vetores de grandes mudanças. E no caso deles isso é bom. Não diria que se faz muito barulho por nada, mas não vejo razão para pânico, seja quem for o eleito.